Entre Linhas

Porque avivar os sentidos também é imaginar entre as linhas de um texto!

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texto vencedor da 1ª jornada
11º campeonato nacional de escrita criativa


Se um dia disser que te deixei entrar, leva-me: estarei louca.

Como poderei ter ousado arrastar a pele para te mostrar as entranhas, se não te quero (ou quero, sei lá); ou querendo não te posso. Deixa-te vir (ui!) que me abraças, desgraças: despedaças. Sem dó, sem dor, sem nada. Quero-te. Não, não quero: selo-me, (des)desejo-te. Onde está a permissão para entrar? Diz, onde está o convite?

Por favor interna-me, isola-me, cala-me: beija-me (porque tardas?). Entope as razões, as minhas, parvas – inúteis -, com salivas, com sabores. Cobre (agora) os meus frios com desejos. Tempera o meu paladar com o teu cheiro. Que digo? Que me digo se articulo o que a razão não sente; componho, envergonhada, as palavras que a emoção transborda. Rebolo, o meu querer no nosso sentir, entre ditongos; entre para cá e para lá. Pára (porque me ouves: estou louca, não percebes?): insana estou. Maldita: porque te quero. Sai. Expira-te num sopro de alento: lento. Por favor interna-me, isola-me, cala-me: beija-me (porque tardas?).

Vai-te, piedoso, misericordioso: tem piedade de mim. Percebes que me acabas? Que me dissolves num calor que não mereço? Vai-te devagar (sem pressas que se me morre a alma), mas vai-te: não te convidei a entrar. Vai-te agora quando te quero: não te posso, não percebes?

Demoras-te, flagelas-me. Dissecas-me, com método, com olhos, com dedos: afiados, prontos. Arrancas-me a pele a frio: a arrepio. Soltam-se os poros, um a um, dilatados; caem compassados exaustos, suados: sugados. Plim! Plim! Mais um estilhaço pelo chão. Mais um pedaço de tudo que se acaba: assim, plim. Não, por favor, vai embora: sai. Espião, ladrão dos meus sentidos: invades-me; despes-me: expões a suor os pudores: os meus, ressequidos, passados, bolorentos. Frenesim de sim e de não. Dança lenta (pausa, compassos: soltam-se uns uis e uns ais), vergonhosa.

Porque entraste? Porque entras? Alguém te escancarou a porta? Acenei-te para avançar? Foi? Pára: não te convidei para o festim dos meus sentidos. Não te lambuzes. Pára, por favor. Não te embriagues: esgotam-se-me os uis e os ais. Vai. Depressa: sai. Corre que se acumulam as horas e a tarde esgota-se em agonia: os raios jazem desbotadas no chão. Calcam-se os arfares e os apertos. Deixa os risos, deixa os braços (e os abraços), pendurados nos sorrisos. Quem te convocou: a festa é minha (sou tua). Vais? Já vais?

Se um dia disser que te deixei sair, leva-me: estarei louca.
 
Luisa Ferreira
Fevereiro'2012

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Escuro era o mundo, que nem mundo ainda seria.
Não havia nomes, nem sábios, nem paz, nem guerra. Apenas nada. Nada mergulhado num breu profundo.
Era um tempo sem tempo.
Um vácuo negro nas entranhas do nada onde o som da natureza emanava para uma plateia sem vida. O som surdo e perturbador fazia tremer o nada, porque nada era o que existia.
E cada nada de energia vibrava sem forma nem jeito. O nada contra o nada numa noite sem amanhecer. E foram noites sem fim, em milénios que não se contavam. E o som da natureza, que não o era porque ainda não existia, vibrava sem canseira, vibrava sem parar.
E as partículas de nada encorajadas espreguiçavam-se sem parar, num movimento sem forma, sem jeito, sem nada.
Até que um dia (sem dia, porque não havia tempo, nem nada que o contasse) o som do universo soou rouco e alto parecendo querer acordar o nada. Porque nada existia. Mas nada era tudo em turbilhão num embalo sem tempo.
E as partículas de nada, carregadas de energia explodiram num clarão de luz. Uma luz que cegou olhos que não existiam e sossegou o murmúrio de bocas que não se viam.
E cada partícula de nada era agora um sorriso de luz num cântico de sobrevivência.
Depois do nada, tudo. E tudo continuava ainda nada, numa evolução lenta, sem tempo. Porque o tempo ainda não existia. O som que era universal e que entoava a uma só voz gemia agora em timbres independentes. E cada ponto de luz era energia que se alongava num ritmo frenético criando coisas ainda sem nome. E as coisas cresciam, evoluíam, transformavam-se em complexos de coisas sem nome, sem nada. Foi num rodopio alucinado, numa dança sem fim crescendo e definhando algo que era micro mas que era vida. Vida que irrompeu sem querer na noite que outrora fora eterna.
Do nada nasceu tudo. De uma voz nasceu a Terra.
Os micros passaram a macros num tempo que já se contava, num tempo que já existia. Brota a guerra da sobrevivência, numa luta de espécies em que sobrevive o mais forte! Eis que começa a vida, que já o era sem saber. Que já o era ainda sem nome.
Da energia emergiu a humanidade que de energia é feita e não sabe. A matéria que está aqui - dentro de ti e de mim, dentro do cão ou da flor -, está em todo o lado e viveu no breu dos tempos, quando o tempo não era nada.

Luísa Ferreira
Concurso Nacional de Escrita Criativa, Janeiro'2011

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Misturavam-se odores e olhares num jogo clássico de sedução.
Estava quente, abafado. O ar era pesado. Atropelavam-se pensamentos em álcool.
Entre gestos largos e risos exagerados tirei as medidas ao tipo que se aproximava de mim.
Pedi ao corpo que não avançasse mais rápido do que o desejo. O rubor cobriu-me a face.
O homem, ainda sem nome, acabava de se sentar descansando o seu corpo bem perto do meu.
Não lhe dei importância. Ignorei-o fazendo-me difícil, dilacerando o meu desejo.
Subitamente pousou a mão entre as minhas coxas suadas e deu-me o nome de Luna.
Desconfortável, amarrada a um nervosismo que me roía a pele, sorri sem desmanchar o equívoco.
Falou-me desmoronando o seu mundo e abrindo o seu peito de quarentão robusto.
Não percebia o que me dizia. Sorria e acenava-lhe com a cabeça esforçando-me para manter aquele monólogo de gestos e palavras sem sentido embrulhadas em soluços e tresandando às tristezas acabadas de afogar.
A mão larga e bem cuidada continuava parada, húmida, manchando a minha coxa imóvel.
Respirei a custo uma lufada de lucidez. Por vezes a imaginação pinta a dourado aquilo que os olhos não ousam ver!
O homem parecia-me agora mais pequeno, os seus cabelos encaracolados pareciam-me descuidados. Sujos? Não isso seria demais!
A pele morena transformara-se numa pele queimada pelo cigarro. De repente o meu novo nome perdeu a graça. A conversa parecia eterna, mal cheirosa e deslocada.
Tentei ganhar espaço, descolar a mão nojenta da minha perna, mas os dedos que outrora me pareceram amáveis apertaram com força a minha pele deixando o rasto das suas marcas.
A multidão inebriada mantinha-me sozinha na minha aflição:
-Minha querida Luna, se pudesses saber. Se algum dia tivesses querido saber... tenho de partir, não posso mais adiar. Fui o teu amigo mais querido, o teu amante mais feroz, a cama em que te deitaste, fui aquilo que sempre me pediste para ser... agora tenho de partir!
- Por favor, deve estar enganado, eu nunca o vi, eu não o conheço! LARGUE-ME!
De repente aquele vulto nojento largou a minha perna e transformou-se à minha frente em mil imagens e objectos que se atropelavam como “frames” de um qualquer filme de terror.
- Entendeste agora? Eu sou a imagem dos teus pensamentos. Luna, mulher da noite... Parto, porque acabaram os teus sonhos!...

Luísa Ferreira
Concurso Nacional de Escrita Criativa, Dezembro'2010